O BORDADO COMO INSTRUMENTO DE ARRAIGAMENTO E CONDUTOR DE VIDA

“O mais importante do bordado
É o avesso…
O mais importante em mim
É o que eu não conheço
O que de mim aparece
É o que dentro de mim Deus tece…
É o segredo do ponto
O rendado do tempo
É como me foi passado o ensinamento”
J.Vercilo

 

Introdução:

 

              O bordado é um oficio milenar e intergeracional, sendo a arte de ornamentar os tecidos com fios diferentes, coloridos, formando desenhos. A palavra bordar etimologicamente também quer dizer “seguir junto à borda, orlar, margear, delimitar as margens”. O ato de bordar provém da tecelagem e há registros desta atividade na pré-história, quando se tecia peles de animais para vestimentas, usando ossos como agulhas.

              Nas antigas civilizações que se desenvolveram as margens do Rio Eufrates, a arte do bordado foi muito cultivada. Os romanos descreviam o bordado como “pintura de uma agulha”. Em alguns textos bíblicos, no Velho Testamento, encontramos referências ao bordado como atividade manual importante e artística.

 

             Na idade Média, principalmente, o bordado estava vinculado à nobreza e religiosidade, alguns deles confeccionados em conventos para ornamentar e diferenciar vestimentas comuns daquelas usadas em cerimônias especiais. Só mais tarde adquiriu status de lazer e ocupação do tempo livre, principalmente para as mulheres das classes mais elevadas. Assim sendo, ampliou-se a variedade e   foi possível criar figuras, desenhos, contornos e aplicação de cores e pontos variados.
            Historicamente, o bordado estava atrelado ao universo feminino e, durante décadas, foi disciplina obrigatória e inseparável do currículo de uma “boa esposa”, assim como cozinhar, tricotar, cuidar dos filhos e da casa. A despeito do estigma, o bordado atualmente vem ganhando força e outros significados, ocupando novos espaços, conquistando públicos de diferentes culturas e ocupações, inclusive servindo de estudo e tese no meio acadêmico, além de ser utilizado como  técnica terapêutica, como no caso da Arteterapia.

 

             Como ferramenta de conscientização política, o bordado é  reconhecido como possibilidade de fonte de renda familiar, dando maior autonomia às mulheres, ou como instrumento de denuncia de condições abusivas e repressivas , como caso das mulheres no Chile, onde  existem as Arpilleras, técnica de bordado utilizada para denunciar as violações cometidas pela ditadura militar no país, na época do ex Presidente Pinochet. As Arpilleras foram criadas por um grupo de bordadeiras de Isla Negra, no litoral chileno, que costuravam à mão imagens feitas de retalhos e  distribuídas clandestinamente. Esta mesma técnica que relata, através do bordado, as angústias, dores, a vida e o cotidiano de uma comunidade,   servirá  de fio condutor para o desenvolvimento do documentário “Arpilleras: bordando a resistência”, sobre pessoas atingidas por barragens no Brasil. (CLIQUE AQUI)

 

Da fragmentação à desfragmentação –
O Bordado na Arteterapia: um relato pessoal
          Em Arteterapia, a construção do símbolo significa concretização do “não-dito”, ou daquilo que as palavras não alcançam. Fonseca (2015), afirma que:
“Ao olhar para o símbolo, o indivíduo adquire a capacidade de olhar seu sentimento sob outra dimensão e com isso elabora outros tantos sentimentos que podem acolher essa dor, aceita-la para depois transformá-la como parte de seu desenvolvimento, de sua superação”. FONSECA
           Em um tempo recente, foi preciso mudar toda organização da minha vida: familiar, profissional, relacional, em função de transferência para outro estado.
         Apesar do entusiasmo pelas novas possibilidades que um lugar diferente pode causar, lidar com a realidade desta mudança repentina não foi fácil. Passados os primeiros momentos, fui envolvida por sentimentos ambíguos e em pouco tempo, sem a estrutura anterior que me permitia alguma segurança emocional, percebia-me fragmentada, partida e sem chão ou raízes. Literalmente, parecia ter sido “desarraigada” da vida.
 
           Buscando o devido acolhimento junto à Arteterapia, o bordado surgiu como um caminho natural para iniciar o processo de arraigamento ou enraizamento. Esta possibilidade de lidar com linhas coloridas, bastidor, agulha, tesoura, vários pontos, me remeteu ao passado quando minha avó me ensinava várias atividades manuais, como bordado, tricô e crochê, “para sossegar essa menina um pouco”, dizia ela.
           Assim como as demais técnicas artísticas abordadas na Arteterapia, o bordado não está associado à questão da estética, e sim ao que representa como função simbólica para indivíduo. Neste contexto específico, para além de suas funções próprias como a possibilidade de escolha, atenção, minuciosidade, delicadeza, ritmo, gradualidade, experimentação, lidar melhor com erro, pelo fazer, desfazer, refazer,  o bordado teve a função de preencher os espaços, ligar os pontos,  seguir um risco, um caminho traçado, pelo desenho escolhido (que já é um símbolo) e, principalmente, dar contorno ao trabalho, à vida.  A atividade uma vez iniciada, conscientizou-me de que era preciso fixar bem os pontos, que não poderiam ser nem frouxos ou apertados demais e equilíbrio foi a meta a conquistar.  Fui automaticamente absorvida pela sensação de introspecção e concentração por aquele trabalho.
             Pouco a pouco, ponto a ponto, o sentimento anterior foi dando espaço para novas percepções como no processo de “desfragmentação”.  Desfragmentar é “ação de reorganizar, juntar arquivos fragmentados em um só local do disco rígido”. Interessante que essa palavra advinda da informática, rima  com individuação, auto avaliação, construção e integração.
Conclusão: 
          O bordado manual estimula a criatividade, eleva os níveis de concentração, tranquilidade mental, estimula a ações equilibradas e amplia a  plenitude, o prazer, além de outros benefícios. Fonseca, cita que “…legitimar o bordado como recurso arteterapêutico é trazer para seu contexto inúmeras possibilidades de representações simbólicas. Ao tecer, o paciente entra em contato com sua ancestralidade, suas crenças e sua história…”.
          E pensando na atividade com as mãos, como instrumentos de arraigamento, Philippini afirma:
“…mãos ferramentas de muitos bordados, delicadas tramas de afetos, desejos e emoções.  No processo arteterapêutico, ao colocá-las em movimento, vamos redescobri-las como sensíveis instrumentos de captação do mundo… É preciso ativar as mãos como instrumentos terapêuticos em suas inúmeras possibilidades de execução, pois a cada transformação externa com os materiais expressivos, analogamente são geradas transformações internas. E neste universo de mãos e materialidade construímos nossa autonomia expressiva e ativamos nosso processo criativo, deste modo, estas mãos são instrumentos potenciais de germinação e construção.” PHILIPPINI 
            Diante desta experiência pessoal, ficaram claros para mim os novos traços e riscos que podem surgir neste novo espaço que agora  transito. Conhecer novos costumes, novos cheiros, sabores, ter outros amores, dentre eles, o bordado.
Afinal, estar na terra de tantas bordadeiras é dar asas à imaginação, à criatividade e à vida.
Referência Bibliográfica:
 
PHILIPPINI, Angela –  Cartografia da Coragem, 2008 – 4ª edição, Ed.Wak
                                         Linguagens e materiais expressivos em arteterapia, 2009,  Editora Wak
FONSECA, Erica L  – O Bordado como representação simbólica no atendimento arteterapeutico – Artigo Arterevista, número 5, 2015
VASCONCELOS, Isabella Karim M F – Tese de Mestrado em Historia -UFRPE –  Uma prática, um bem cultural : uma história sobre o bordado na cidade de Passira-PE, Fev 2016

Funções Executivas e Aprendizagem

Funções Executivas e Aprendizagem

A Neurociência Cognitiva renova a ideia de que para se conhecer a mente é preciso antes conhecer o cérebro.

As funções mentais superiores, ou seja, a Aprendizagem, a Memória e a Linguagem, até meados do século XIX, foram estudadas apenas pela Psicologia e pela Fisiologia experimental invasiva. Foi em 1861 que se deu o primeiro grande passo para a compreensão dos mecanismos neurais dessas funções, quando Pierre Paul Broca descobriu que a fala é controlada por uma área específica do lobo frontal esquerdo. Em seguida, com novas pesquisas, foram localizadas as áreas do controle voluntário e diferentes córtices sensoriais primários para a visão, audição, sensibilidade somática e paladar.

Mas, apesar de os estudos neurológicos terem avançado com descrições elaboradas das funções cognitivas desempenhadas por várias partes do cérebro, a Fisiologia dos lobos frontais permanecia praticamente como uma incógnita, tendo sido por isso denominados de “lobos silenciosos” (Goldberg, 2002).

Um acidente não fatal, ocorrido em 1848, quando uma barra de ferro atravessou o crânio de um jovem rapaz, Phineas Gage, por meio da área frontal de seu cérebro, desencadeou novas descobertas a respeito desse lobo cerebral. Apesar de lúcido, com pleno uso de suas funções sensoriais, vegetativas e motoras, capaz de se comunicar, falar, ouvir, andar, pensar, o rapaz teve sua personalidade totalmente modificada, passando de um trabalhador responsável e bem adaptado socialmente a uma pessoa de modos rudes, instável e com evidente labilidade emocional.

Ao final do século XIX já havia evidências suficientes para atribuir ao lobo frontal a sede da atividade mental superior, e a importância da nova descoberta despertou muitos estudos específicos nesse campo. Embora ainda não totalmente esclarecidas, já se sabe comprovadamente que é nessa região do cérebro que se encontram as maiores diferenças na evolução filogenética entre os humanos e seus antepassados. Responsável pelas nossas habilidades mais complexas, como o planejamento de ações sequenciais, a uniformização de comportamentos sociais e motores, flexibilidade mental, parte da memória, a área frontal do cérebro não se refere a nenhuma habilidade mental específica, porém sua função abrange todas elas: parece ser mais metacognitiva do que praticamente cognitiva e, decorrente desse fato, passou-se a denominar de Função Executiva.

Funções Executivas facilitam o funcionamento cognitivo ao coordenarem a execução de um objetivo e são ligadas às habilidades de processamento de informações inter-relacionadas: memória de trabalho(armazenamento e atualização das informações enquanto o desempenho de alguma atividade relacionada com elas), o controle inibitório (a inibição da resposta prepotente ou automatizada quando o indivíduo está empenhado na execução de uma tarefa) e a flexibilidade mental (capacidade de mudar a postura de atenção e cognição entre dimensões ou aspectos distintos, mas relacionados, de uma determinada tarefa).

Durante tal processo, alguns de seus componentes (como a atenção seletiva, flexibilidade cognitiva e planejamento) atingem mais tardiamente a maturidade, se comparadas a outras funções cognitivas, o que torna ainda mais complexa a compreensão da cognição humana e seus transtornos.

Déficits de desenvolvimento cognitivo, problemas de conduta e na aprendizagem acadêmica podem decorrer de prejuízos nas Funções Executivas, caracterizando a chamada Síndrome Disexecutiva. Seus sintomas mais claramente perceptíveis são as alterações cognitivo-comportamentais, associadas às dificuldades na seleção de informação e na tomada de decisão, assim como a distratibilidade, problemas de organização, comportamento perseverante ou estereotipado, dificuldades na constituição de novos repertórios comportamentais, déficit de abstração e de antecipação das consequências, tão frequentes nos transtornos de aprendizagem. Atualmente aliás, se descrevem diversas dificuldades cognitivas em termos de Disfunção Executiva, quando se trata de problemas marcantes com a hiperatividade, atenção e problemas de aprendizagem.

Função Executiva tem início nos primeiros meses de vida pós-natal, e se transforma gradativamente até o final da adolescência, relacionada com o processo de configuração e amadurecimento cortical da região pré-frontal, uma das últimas áreas cerebrais a passar por esse processo.

Ainda que existam variações de maturação cerebral entre crianças de mesma idade, a filtragem de informações própria das Funções Executivas se desenvolve mais acentuadamente entre os 6 e 8 anos de idade e segue até começo da idade adulta, mas via de regra cresce de acordo com a progressão escolar.

Durante tal processo, alguns de seus componentes (como a atenção seletiva, flexibilidade cognitiva e planejamento) atingem mais tardiamente a maturidade, se comparadas a outras funções cognitivas, o que torna ainda mais complexa a compreensão da cognição humana e seus transtornos.

Especificamente, o córtex lateral órbito-frontal, responsável pelo controle dos impulsos, é o que amadurece por último, na década dos vinte anos, devido à progressiva e ininterrupta mielinização dos axônios do córtex pré-frontal, de onde se podem tirar algumas conclusões a respeito da educação e das questões relativas à socialização dos nossos jovens.

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 117 – Adaptado do texto “Funções Executivas e Aprendizagem”  *Maria Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp

Arte e a esquizofrenia – Yayoi Kusama, a dama das bolinhas

Yayoi Kusama, artista japonesa, portadora de esquizofrenia,  vive num hospital psiquiátrico no Japão, para onde foi de livre vontade em 1977, depois de ter vivido quase duas décadas em Nova Iorque, onde conheceu, por exemplo, Andy Warhol.  Suas obras representa as alucinações de que sofre e uma das suas maiores obsessões são os pontos. Sobre isso, ela diz: “Minha arte é uma expressão da minha vida, sobretudo da minha doença mental, originário das alucinações que eu posso ver. Traduzo as alucinações e imagens obsessivas que me atormenta em esculturas e pinturas. Todos os meus trabalhos em pastel são os produtos da neurose obsessiva e, portanto, intrinsecamente ligado à minha doença. Eu crio peças, mesmo quando eu não vejo alucinações, no entanto. Com o tempo, passou a preencher pisos, paredes, telas, objetos e até pessoas com seus pontos.” Hoje a sua arte é conhecida como Polka Dot.

“A cada 3 segundos, um idoso é diagnosticado com algum tipo de demência no Mundo.”

Setembro também é mês para alerta para doenças como  Alzheimer.
“A cada 3 segundos, um idoso é diagnosticado com algum tipo de demência no Mundo.”
Entretanto, uma pesquisa publicada na revista The Lancet, sobre pesquisas na área da medicina, informou que um em cada três casos de demência é evitável.
No caso das intervenções não medicamentosas chegou-se a algumas observações, tais como: “Intervenções psicológicas, sociais e ambientais como contato social são mais eficazes”, aponta, acrescentando também o benefício de “intervenções não medicamentosas como terapia de estimulação cognitiva em grupo”.
Os Grupos Arteterapêuticos para idosos, com objetivo de estimulação cognitiva em vários aspectos são eficazes e de resultados interessantes.
“Intervenções psicológicas, sociais e ambientais como contacto social são mais eficazes”, aponta, acrescentando também o benefício de “intervenções não medicamentosas como terapia de estimulação cognitiva em grupo”.

A cada três segundos, um idoso é diagnosticado com algum tipo de demência no mundo

“As demências crescem não só no país como no mundo. Simpósio em Brasília discutiu importância de se vencer o preconceito com relação às doenças

O Brasil vai duplicar o número de idosos até 2030, quando a previsão é que 18% da população esteja acima de 60 anos. Esse grupo vai ultrapassar o percentual da população de 0 a 14 anos, que corresponderá a 17% da população e sempre foi maior no país.

Com o avanço da longevidade, o país tem muitos desafios pela frente, um deles, a demência. Doença não letal, a demência provoca a perda da independência do individuo, compromete a memória e a capacidade de tomar decisões, a orientação no tempo e espaço, provoca alteração do comportamento e do raciocínio. O tema foi assunto do I Simpósio ABRAZ-DF sobre demências, organizado em Brasília, nesta sexta-feira (21/10).

No mundo, um caso de demência é diagnosticado a cada 3 segundos. “As demências tornaram-se uma epidemia mundial. É preciso um despertar urgente para esse problema”, alerta o geriatra Otávio Castello, da Associação Brasileira de Alzheimer do DF. Para o geriatra, o assunto deve ser abordado, pois a demência é uma doença que precisa ser desmitificada.

Hoje, 54% dos idosos com demências têm Alzheimer, 9% possuem demências vasculares e 14% demências mistas, segundo a demógrafa Ana Amélia Camarano, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Os casos de Alzheimer são crescentes ano após ano. Se em 2010, 1 milhão de idosos no Brasil tinham Alzheimer, em 2020 serão 1,6 milhão.

No Sistema Único de Saúde (SUS), somente o Alzheimer, gerou 38,13 milhões de atendimentos ambulatoriais no ano de 2015. Para tratar esses pacientes, o Ministério da Saúde disponibiliza, sob recomendação médica, a rivastigmina, a donepezila e a galantamina.

Além do tratamento com remédios, o SUS oferece a Caderneta do Idoso, que está implantada em mais de 500 municípios e dimensiona e orienta a população idosa nos territórios; o Programa de Qualificação em Saúde da Pessoa Idosa da Unasus (Universidade Aberta do SUS) que já formou mais de 2 mil profissionais no tema e o Melhor em casa, programa que realiza atendimento domiciliar, cujos atendimentos por equipe multiprofissional correspondem a 70% de idosos.

“Os dados demonstram que precisamos lidar com um novo paradigma na saúde, ou seja, focando no cuidado continuado”, avalia a coordenadora de saúde do Idoso do Ministério da Saúde, Cristina Hoffmann.

Os fatores de risco para as demências também foram tratados no simpósio em Brasília. Entre eles, estão a obesidade, uso de álcool, falta de atividade física e a depressão. Para prevenir doenças, entre elas as demências, o Ministério da Saúde tem trabalhado com programas de incentivo a atividade física, como o Academia da Saúde, que tem 1.165 polos em todos os estados brasileiros, e o incentivo a alimentação saudável, com a divulgação de guias alimentares e a redução do sódio nos alimentos.

Carolina Valadares, jornalista, especialista em Bioética e em Marketing Digital.A cada três segundos, um idoso é diagnosticado com algum tipo de demência no mundo
Enviado por abrazdrupaladmin em qui, 10/11/2016 – 11:20
As demências crescem não só no país como no mundo. Simpósio em Brasília discutiu importância de se vencer o preconceito com relação às doenças.

O Brasil vai duplicar o número de idosos até 2030, quando a previsão é que 18% da população esteja acima de 60 anos. Esse grupo vai ultrapassar o percentual da população de 0 a 14 anos, que corresponderá a 17% da população e sempre foi maior no país.

Com o avanço da longevidade, o país tem muitos desafios pela frente, um deles, a demência. Doença não letal, a demência provoca a perda da independência do individuo, compromete a memória e a capacidade de tomar decisões, a orientação no tempo e espaço, provoca alteração do comportamento e do raciocínio. O tema foi assunto do I Simpósio ABRAZ-DF sobre demências, organizado em Brasília, nesta sexta-feira (21/10).

No mundo, um caso de demência é diagnosticado a cada 3 segundos. “As demências tornaram-se uma epidemia mundial. É preciso um despertar urgente para esse problema”, alerta o geriatra Otávio Castello, da Associação Brasileira de Alzheimer do DF. Para o geriatra, o assunto deve ser abordado, pois a demência é uma doença que precisa ser desmitificada.

Hoje, 54% dos idosos com demências têm Alzheimer, 9% possuem demências vasculares e 14% demências mistas, segundo a demógrafa Ana Amélia Camarano, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Os casos de Alzheimer são crescentes ano após ano. Se em 2010, 1 milhão de idosos no Brasil tinham Alzheimer, em 2020 serão 1,6 milhão.

No Sistema Único de Saúde (SUS), somente o Alzheimer, gerou 38,13 milhões de atendimentos ambulatoriais no ano de 2015. Para tratar esses pacientes, o Ministério da Saúde disponibiliza, sob recomendação médica, a rivastigmina, a donepezila e a galantamina.

Além do tratamento com remédios, o SUS oferece a Caderneta do Idoso, que está implantada em mais de 500 municípios e dimensiona e orienta a população idosa nos territórios; o Programa de Qualificação em Saúde da Pessoa Idosa da Unasus (Universidade Aberta do SUS) que já formou mais de 2 mil profissionais no tema e o Melhor em casa, programa que realiza atendimento domiciliar, cujos atendimentos por equipe multiprofissional correspondem a 70% de idosos.

“Os dados demonstram que precisamos lidar com um novo paradigma na saúde, ou seja, focando no cuidado continuado”, avalia a coordenadora de saúde do Idoso do Ministério da Saúde, Cristina Hoffmann.

Os fatores de risco para as demências também foram tratados no simpósio em Brasília. Entre eles, estão a obesidade, uso de álcool, falta de atividade física e a depressão. Para prevenir doenças, entre elas as demências, o Ministério da Saúde tem trabalhado com programas de incentivo a atividade física, como o Academia da Saúde, que tem 1.165 polos em todos os estados brasileiros, e o incentivo a alimentação saudável, com a divulgação de guias alimentares e a redução do sódio nos alimentos.”

Fonte: Carolina Valadares, jornalista, especialista em Bioética e em Marketing Digital. /ABRAz

 

Arteterapia e Demência: Como a criatividade ajuda a destrancar pensamentos e medos de pacientes com Alzheimer

Tradução livre da autora do artigo: Art Therapy And Dementia: How Creativity Helps Unlock Alzheimer’s Patients’ Thoughts And Fears. Publicado pelo jornal Canadense sobre o trabalho realizado no Hospital Saint Michael, Toronto, Canadá.

Entre várias faculdades preciosas que a demência rouba de uma pessoa, as habilidades artísticas não parecem ser uma delas, é o que estudos recentes descobriram. E enquanto os idosos avançam na velhice, a expressão criativa pode ser a chave que abre, o que a doença mental mantem tão dolorosamente inacessível.

Abrindo a mente com a arte

Comunicação é uma das primeiras perdas das pessoas que lutam contra a demência. Enquanto um indivíduo pode pensar os mesmos pensamentos e carregar os mesmos medos, a habilidade de transmitir esses pensamentos e sentimentos diminui enquanto a doença piora. Um estudo do Hospital Saint Michael, em Toronto, apresentou resultados promissores com pacientes com demência cuja habilidade artística tem permitidos a eles se comunicarem com os entes queridos e a equipe do hospital.

Publicado no Jornal das Ciências Neurológicas, do Canadá, o estudo foi focado na renomada escultora internacional Mary Hecht antes de sua morte em abril de 2013. As habilidades artísticas de Hecht eram, sem dúvidas, anteriores à sua batalha contra a demência, mas o que os médicos acharam fascinante foi a sua propensão a fazer desenhos e retratos detalhados, tudo de memória nos anos que antecederam sua morte. Isso tudo apesar do caso severo de demência vascular, um tipo de doença mental similar ao Alzheimer, que é marcado pelo declínio severo das habilidades cognitivas além da redução de fluxo sanguíneo para o cérebro.

“A arte abre a mente”, afirma autor do estudo Dr. Luis Fornazzari, especialista em neurologia na clínica de memória do Hospital Saint Michael. “Mary Hecht foi um exemplo notável de como as habilidades artísticas são preservadas, apesar da degeneração do cérebro e da perda das funções e da memória mais quotidiana.”

Devido ao acidente vascular que teve anteriormente, Hecht ficou presa em uma cadeira de rodas. As habilidades cognitivas ficaram tão debilitadas que ela não conseguia reproduzir as horas corretamente num simples desenho de um relógio; ela também não podia se lembrar de nenhuma das palavras que fora pedido para se lembrar ou o nome de animais comuns. Mesmo assim, ela conseguia reproduzir de memória um desenho que fez a mão livre momentos antes. Também desenhou um retrato detalhado da assistente de pesquisa da Clinica da Mémoria do Hospital.

“Esta é o exemplo mais excepcional do grau de preservação das habilidades artísticas que vimos na nossa clinica”, disse o Dr. Corinne Fischer, diretor da Clínica da Memória e um dos autores da pesquisa. “A maioria dos estudos que tem sido feito nessa área focaram em outros tipos de demência, como o Alzheimer e a demência temporal frontal, enquanto que este é um caso de restrição cognitiva em uma paciente com uma avançada demência vascular”.

Comunicando o que palavras não podem mais

Muitos casos similares aos de Hecht existem nos hospitais que praticam a arteterapia. E enquanto a prática tem comprovados benefícios paliativos, médicos permanecem inseguros sobre como a expressão pode ter efeitos tão profundos.

“Arteterapia ajuda muito pacientes com demência e Alzheimer”, diz Dr. Daniel Potts, neurologista e especialista em Alzheimer no Alabama, “porque habilita o indivíduo que está tendo problemas com a comunicação a passar por esses problemas de linguagem, se comunicando e se expressando de um jeito diferente”.

Cientistas não sabem o que causa a doença de Alzheimer, que é a forma mais comum de demência, e resulta do acúmulo da proteína beta-amilóide nas células nervosas do cérebro. Essas placas se espalham pelo córtex enquanto a doença avança, diminuindo as funções mentais e inibindo os processos neurológicos associados com a memória e a cognição. Arteterapia parece “redirecionar” a comunicação para caminhos diferentes dos meios tradicionais.

“Há algo na produção da arte que permite ignorar alguns dos problemas da demência”, diz Potts. “Arte e música parecem derivar-se de diferentes regiões do cérebro”.

Enquanto essas formas de terapia podem não curar a demência de um indivíduo, elas podem oferecer uma substancial recompensa da qual ela poderia não receber nesse estado.

“Ela dá uma sensação individual de realização”, adiciona Potts. “Elas estão perdendo sua cognição, mas a arteterapia dá um caminho para criar e ter alguma satisfação. Isso permite a eles explorarem seu verdadeiro eu, que de outras formas não poderiam”.

http://www.medicaldaily.com/art-therapy-and-dementia-how-creativity-helps-unlock-alzheimers-patients-thoughts-and-fears-254301

Fonte: Fornazzari L, Ringer T, Ringer L, Fischer C. Preserved Drawing in a Sculptor with Dementia. Canadian Journal of Neurological Sciences. 2013.

Extraído Blog Não Palavra – 2015 – Por Maria Cristina Resende

A mensagem está na superfície da imagem

“Dito de outra forma, o que emerge da obra, o que é o mais evidente, o que salta aos olhos, representa a situação inacabada mais preocupante, a necessidade mais urgente ou a resistência mais forte. 
A mensagem mais urgente se encontra sempre na superfície da imagem. É o indicio, a dica que precisamos para perseguir ou percorrer o caminho .”

O caminho da imaginação – O processo de arteterapia – Alexandra Duschatel